A desumanização, de Valter Hugo Mãe



Primeiramente, olá! Aqui quem escreve é a Rafa. Sou uma nova colaboradora da equipe do Anne & Cia. Para uma breve introdução: tenho vinte anos, sou escritora e curso Direito no interior do Paraná. Como minha primeira resenha para o blog, escolhi falar sobre o livro A desumanização, quarto romance do escritor português Valter Hugo Mãe.

Apesar de se tratar do quarto romance publicado por Mãe, foi o primeiro que li desse autor e certamente não me arrependo dessa escolha. A desumanização conta a história da menina islandesa Halla - ou Haldora - que, com apenas onze anos, acaba de se deparar com o falecimento de sua irmã gêmea, Sigridur. A protagonista narra, com simplicidade e sinceridade extremamente poéticas, os acontecimentos e sentimentos que enfrenta após a perda da irmã, vista pelas pessoas do seu convívio - e em certo ponto até por ela mesma - como sua "metade", agora morta. 

Halla nos conta de maneira muito peculiar as emoções que desabrocham nela a partir do luto, também percebidas ou refletidas naqueles que a rodeiam: o Pai romântico e sonhador; a Mãe agressiva afogada na própria dor; o abobalhado e confuso Einar; entre outros, que vão surgindo ao longo do relato da garota. Conforme mergulhamos em seu desamparo, vamos enfrentando junto com ela a transformação que vem da perda de uma pessoa muito próxima e amada. Na verdade, talvez "muito próxima e amada" seja pouco para falar de Sigridur: ela era a pessoa mais importante da vida de Halla, sua grande companheira desde o nascimento, sua melhor amiga e confidente. Com a morte dela, nossa protagonista passa a traçar um caminho muito solitário, por meio do qual ela é exposta a um amadurecimento traumático e à mudança de suas visões de mundo.

Um papel muito importante na narrativa é dado às paisagens da Islândia, onde nossa história é ambientada. Os fiordes islandeses transmitem muito da melancolia que permeia por completo o relato da menina, de modo que a natureza gélida e por vezes até hostil praticamente ganha status de personagem em A desumanização. Se propor a ler esse livro é segurar a pequena mão gelada de Halla e deixar que ela nos guie pelo seu mundo, ainda muito jovem, mas já imensamente profundo e imprudentemente poético.




Ficha Técnica:
Título: A desumanização | Autor: Valter Hugo Mãe | Ano: 2013 | Páginas: 192 | Idioma: português | Editora: Globo Livros, sob o selo Biblioteca Azul 

Um dos pontos muito interessantes do livro é a rejeição social que a protagonista parece sofrer depois da morte da irmã gêmea. Sua comunidade passa a tratá-la como "a menos morta", como um fantasma que "sobrou" da partida de Sigridur, muitas vezes isolando-a em seu sofrimento. Os únicos que a oferecem apoio e uma presença que vai além do aspecto físico - o tipo de presença do qual ela mais precisava - são seu pai e o jovem Einar. Desenvolvi um carinho imenso por esses personagens, por serem tão reais e humanos.

Valter Hugo Mãe conduz a história com maestria, usando de metáforas que são de tirar o fôlego. Quando decidi começar a ler A desumanização, pensei que deveria fazer uma leitura lenta pois, apesar de ser um livro fino (apenas 192 páginas), sabia que seria um tanto "pesado" e achei que precisava de tempo para absorver a narrativa. Eu estava certa quanto ao "tempo necessário para absorção", mas não consegui desgrudar do livro e terminei de ler em apenas DOIS DIAS. A gente fica tão envolvida no relato de Halla que simplesmente não consegue deixar de lado. Foi um livro que ficou na minha cabeça (e no meu coração) ainda bem depois de ter virado a última página. 

Vale apontar também que a edição da Editora Globo, sob o selo de Biblioteca Azul, é lindíssima e conta com ilustrações de Fernando Lemos, que realmente combinam perfeitamente com as imagens e sensações despertadas por esse livro. Certamente vou comprar os outros romances de Valter Hugo Mãe dessa mesma "coleção", pois o trabalho gráfico é sensacional. Recomendo muito a leitura para quem não gosta de "águas rasas" e quer mesmo se sentir tocado por uma história. 



Os poemas são instintivos, eu disse. Uma natureza instintiva que quase nos redime. Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da cabeça. Fica-se a ver muito bem o que até então nunca se vira. Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite.

9 comentários

  1. Que história mais densa. Costumo gostar de enredos assim. Sua resenha está muito bem delineada e fiquei curiosa. Vou anotar a dica.
    Beijos.

    www.alempaginas.com

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  2. Oi Rafa, tudo bem? Eu não conhecia a obra, mas a ambientação parece muito boa, bem como a edição da Editora Globo. O enredo é interessante, mas não é uma história que leria no momento. de qualquer, sua resenha está super completa, adorei!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  3. Olá
    Nossa só pela resenha eu já fiquei arrepiada, que história dramática e bonita e me fez já pensar em coisas que nunca tinha cogitado como o fato de se um gêmeo morrer o outro ser tratado tão friamente só porque lembra o que se fora.
    Já quero ler essa obra.
    Resenha muito bem feita
    Beijuh

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  4. Não conhecia o livro ou mesmo o autor, mas gostei da premissa que nos apresentou. O luto é sempre um assunto dramático e poder acompanhar as mudanças que ele causa na vida das pessoas deve ser interessante, ainda mais se tratando de uma irmã gêmea e o autor utilizando metáforas de tirar o fôlego. Também nunca li nada ambientado na Islândia, então gostei da recomendação.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  5. Olá, tudo bem?

    Gostei muito da premissa. Confesso que não conhecia o autor, menos ainda suas obras, mas que a forma com que você apresentou o livro me cativou. Ultimamente está difícil encontrar livros que nos tragam intensidade, ainda mais em poucas páginas.

    Beijo!

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  6. Oie!
    Que edição linda! Amei tudo o que você disse sobre a história, parece ser mesmo muito reflexivo. Adoro metáforas como as que você citou que ele faz, marco todas com post it ❤

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  7. Oi Rafa!
    Primeiro, tenho que parabenizá-la pelo excelente resenha. Além de muito bem escrita, passa tudo o que imagino que a história transmite, e me deixou extremamente curiosa para ler. Parabéns!
    Agora sobre o livro... Nunca li nada do Valter Hugo Mãe, mas tenho um livro dele aqui em casa. E apesar de ter um livro dele, nunca tinha ficado muito interessada nos seus livros, mesmo as pessoas falando super bem da escrita dele. Mas com a sua resenha, fiquei muito curiosa, pois gosto de histórias que tratam da perda de um familiar e se passando na Islândia, gosto mais ainda!
    Desculpa o comentário gigantesco!
    Bjss

    https://umolhardeestrangeiro.blogspot.com.br/

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  8. Olá, tudo bom?
    Não conhecia o autor, mas confesso que fiquei super curiosa em conhecer essa obra. Achei super interessante essa premissa de perda, mesclada a forma como as pessoas passam a ver a garota que está viva. Parece ser de fato uma obra delicada e envolvente. Já anotei a sugestão! Amei sua resenha ♥
    Beijos!

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  9. Certeza absoluta que eu nunca li nada que fosse ambientado na Islândia e gostei de saber que na narrativa, a melancolia do povo é passada como uma característica do lugar. Achei o enredo interessante e espero ter a oportunidade de ler.
    beijos

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